Priprioca, bem mais que um cheiro – um paladar

Você sabe o que é priprioca? A palavra pode soar estranha, mas a planta originária da Amazônia começa a ser incorporada a algumas áreas, como perfumaria e culinária. Já é possível encontrar, por exemplo, em cosméticos da Natura e nos pratos sofisticados do estrelado chef Alex Atala.

SAO PAULO 20/09/2014 PALADAR / 8º PALADAR COZINHA DO BRASIL / ESTUDIO / PRIPRIOCA - NEKA MENNA BARRETO - AGUAS DE CHEIRO /FOTO ROBERTO SEBA/ESTADAO

Se pelo Brasil afora a priprioca é pouco conhecida, no Pará ela representa uma importante fonte de renda para muitas famílias de agricultores e feirantes. Principal ingrediente dos encantados banhos de cheiro usados pelos paraenses nas festas de São João e nas comemorações de fim de ano, a planta já virou até tema de livro. Desde 2000, o vegetal é alvo de estudos realizados pelo Museu Paraense Emilio Goeldi, em parceria com outras instituições de pesquisa – Universidade Federal Rural da Amazônia (UFRA), Universidade Federal do Pará (UFPA), Embrapa Amazônia Oriental e Universidade do Estado do Pará (UEPA) -, cujos resultados estão reunidos no livro Priprioca: Um Recurso Aromático do Pará , organizado pelas pesquisadoras Graça Zoghbi e Raimunda Potiguara.

“O óleo da priprioca já havia sido indicado como de excelente qualidade olfativa quando foi analisado por perfumistas suíços ainda na década de 1980, no INPA (Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia), em Manaus”, disse Graça, que trabalhou com a extração do óleo e a identificação de sua composição química. E, diante de sua experiência no assunto, afirmou: “A planta é um insumo importante para a perfumaria, já que tem um óleo essencial com excelência de qualidade olfativa e de difícil recomposição sintética. Além disso, já era comercializada no Estado, na feira Ver-o-Peso e também utilizada pelas empresas de perfumaria regionais há mais de 30 anos da data de lançamento dos produtos atuais”

 

Da mata para mesas sofisticadas
O premiado chef Alex Atala, proprietário dos restaurantes D.O.M e Dalva e Dito, em São Paulo, descobriu a priprioca durante suas viagens à Amazônia. “Seu odor fica entre aromas de ervas secas e madeiras e remete ao patchouli.” Alex acrescentou a planta em suas criações gastronômicas.

Se durante anos o vegetal passou despercebido pelos gourmants por conta de sua utilização para confecção de perfumes, agora pode ser apreciado em forma de aroma na comida. “Incluí a priprioca pela capacidade que este aroma tem de ser aplicado em doces, salgados e carnes como agente aromatizador. Sempre tendo em vista que o sabor é o aroma líquido.” O chef adquire a planta nos mercados da Amazônia, ainda o único lugar de comercialização in natura.

Para isso, ele explica que há dois processos para extrair o aroma da priprioca. Pode ficar 15 dias no álcool de cereais – um processo rudimentar, dos mais antigos de extração de aromas. E também por destilação a frio – um processo laboratorial. O chef usa o primeiro processo para garantir o aroma da planta em duas sobremesas, uma no D.O.M. e outra no Dalva e Dito, e em dos pratos dos menus degustação do D.O.M.

Cosméticos
O óleo essencial extraído da raiz da priprioca faz parte do palete de 12 óleos essenciais e aromáticos da empresa Natura. Ele compõe, com outros óleos, a assinatura olfativa da marca. Na linha Ekos Priprioca há os seguintes produtos: Colônia Essência do Brasil, Água de Banho, Desodorante Corporal, Óleo para Corpo, Hidratante para Banho, Sabonete em Barra e Perfume do Brasil.

A Natura escolheu a priprioca para uma de suas linhas porque é extraída da biodiversidade brasileira. Segundo a empresa, “seu perfume é marcante e inusitado, um aroma tão único e fascinante que reúne, ao mesmo tempo, a riqueza da nossa mata e a força da tradição dos povos da floresta”.

A priprioca utilizada pela Natura é extraída por um grupo de agricultores cooperativados do Pará. A extração é feita de forma sustentável através de um processo de aproximação, desenvolvimento e relacionamento com comunidades extrativistas.

Segundo a empresa, a planta é extraída das comunidades de Campo Limpo, no município de Santo Antônio de Tauá, Vai-quem-quer, localizada na ilha de Cotijuba e Boa Vista, todas localizadas no Amazonas. É cultivada e extraída do canteiro do quintal das casas. Em seguida é colhida, ensacada e transportada para a beira de um igarapé. É a hora da lavagem. Homens e mulheres entram na água, desensacam as raízes e enxáguam. A priprioca já reensacada é transportada para o depósito comunitário.

Outros usos
O conhecimento da priprioca é uma herança dos povos da Amazônia. Plantada em seus quintais, ralada ou raspada, era também usada como remédio.

No artigo intitulado Uso e Importância Econômica da Priprioca no Pará, escrito por Jorge Oliveira, do Museu Goeldi, em parceria com Graça Zoghbi, há relatos de que os tubérculos foram utilizados, durante muito tempo, na elaboração de uma tintura analgésica e antitérmica. O líquido, chamado “vinagre aromático”, era comercializado nas farmácias ou produzido de forma caseira e continha, além da priprioca, vinagre, folhas de eucalipto e dentes de alho. Essa tintura servia de compressas geralmente aplicadas na testa, contra dor de cabeça, e no peito e costas do paciente para atenuar a febre.

Outra utilização do vegetal, mesmo em menor escala, é para o artesanato. O escapo floral que constitui a parte aérea da espécie é reaproveitado por artesãos no acabamento de peças decorativas, como vasos, cinzeiros e caixinhas de madeira. Eles trabalham o que não é utilizado na perfumaria –

o caule – também desprezado pelos feirantes.